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O Mais Feliz do Brasil
O assunto mais comentado nas rodas de circenses pelo Brasil a fora é o retorno do Vostok ao país. A todo momento, amigos e colegas de profissão me perguntam via MSN, Orkut, Facebook ou telefone como foi a estréia, como está o circo, se estamos recebendo. Pois agora, relato com todos os detalhes como foi a estréia e como está o clima aqui no Vostok.
Contrariando os mais invejosos e pessimistas, estreiamos na data marcada, com alguns minutos de
atraso, e mesmo com um temporal daqueles cheios de relâmpagos e trovoadas, tivemos um bom público. É claro que o nervosismo estava presente, mas o público se empolgou com as atrações e no final, os comentários eram os melhores possíveis.
Afirmo, com todas as letras que o ambiente aqui é o melhor que já vi. O clima é espetacular. O circo é uma fábula. Aqui se sonha e se realiza. Na cabeça de muitos, a volta do Circo Vostok era um sonho, e para os mais ásperos, esse retorno era apenas uma maluquice. Alguns, mais invejosos, apostavam que não existiria estréia, que tudo era apenas uma jogada, que o circo já estava nascendo falido. Pois eis que o circo estreiou, trabalhou, mostrou a Porto Alegre um espetáculo extraordinário, como há muitos anos não se apresentava um show desse gabarito nesta capital, com 90% da companhia formada por artistas estrangeiros, mostrando números diferentes dos habituais, caras novas, de alto astral do começo ao fim.

Aqui se tem paz de espírito. O Sr. Vostok é um líder nato e só pelo fato de primar pela qualidade já merece nossos aplausos. Como escrevi em uma coluna anterior, muitos donos de circo deixaram de se preocupar com seus espetáculos, visando mais lucros, baixaram as folhas de pagamentos e a qualidade foi pro beleléu. O Sr. Vostok veio para mostrar que qualidade no espetáculo é importante sim. Aqui tem uma família equatoriana que faz um número de icários excelente. Os mesmos artistas fazem pirâmides humanas sobre cilindros. O duo aéreo, vindo da Argentina é um número encantador, que emociona pela beleza plástica e surpreende pela complexidade e pelo grau de dificuldade dos truques. O malabarista é ágil como The Flech, carismático e hábil, um verdadeiro show-man. O tecido é espetacular. O adágio é o momento clássico do espetáculo e nos remete aos circos europeus. O número de contorção da boneca de pano manipulada pelo Pinóchio leva as crianças ao delírio. E quando a boneca de pano se transforma em Daniela Moura, uma garotinha de 8 anos de idade, os adultos é que suspiram fundo. No globo da morte, Ricardo Rodrigues prova que qualidade não tem nada a ver com quantidade. Em seu show solo, ele da looping de pé e sem as mãos. Ainda tem trapézio, palhaços, e para finalizar, o belíssimo aparelho de Águas Dançantes, fabricada pelo genial Flávio Almeida e manipulada por mim.
Sei que há circenses que estão falando mal do circo e do espetáculo. Garanto à todos: o circense que saiu daqui falando mal está com inveja, está despeitado. Se é artista, por não estar no elenco. Se é dono, por não ter um espetáculo do mesmo nível; ou por estar contrariado porque pensou que o Vostok não seria nada disso do que é.
Sei que neste momento, muita gente está pensando como sou puxa-saco. Minha intenção não é esta. Estou escrevendo nesta minha coluna exatamente o que estou sentindo. Me sinto feliz aqui. Aqui sou respeitado e valorizado. Minha vinda para cá, me abriu uma porta nova, com outras possibilidades. Literalmente, minha vida mudou. Estou mais alegre, minha auto estima voltou, acordo cedo cantando, sinto prazer em respirar.
Eu andava cansado. Gostava muito do meu antigo emprego. Era uma casa muito boa. Fazia muitas coisas, mas eu não passava de um carinha que vivia à sombra dos outros. Sempre tinha uma comparação. " O Fulano lotava até no meio do terremoto." ou "O Beltrano segurava o microfone assim, se vestia assado..." Eu sempre ouvia isso. Mas ia levando, trabalhando, fazendo sempre um pouco mais do que a obrigação. Só resolvi sair porque tomaram o meu lugar. Apenas por isso. O que acho errado, porque se fosse o contrário, eu jamais iria para um circo promover a estréia se já tivesse um profissional encarregado dessa área. Lembro quando eu estava no Beto Carrero tendo sérios problemas com a gerente que queria me ver fora da empresa e ela tentou contratar o Chico locutor diversas vezes e a resposta dele sempre foi a mesma: Só iria no momento em que eu resolvesse minha situação. Jamais iria tirar meu lugar. Nos dias em que fiquei parado em minha casa, recusei um contrato pelo mesmo motivo. Assim fazem as pessoas que tem ética. Assim fazem os grandes profissionais.
Ora, chega um momento em que você cansa de ser sempre comparado a alguém. Até mesmo em oportunidades que tive de ganhar mais dinheiro, quando promovia espetáculos, trabalho que não executo aqui, sempre havia uma comparação. Se meu espetáculo fosse fraco, era porque supostamente eu tinha dormido muito, ou tinha ficado na frente do computador o tempo inteiro, mas se lotasse, o que frequentemente acontecia, não era por minha causa, e sim porque a praça estava descansada, ou o motivo da lotação era o cortejo de duas carretas baú pela avenida principal da cidade. Para algumas pessoas, nunca o meu trabalho lotou uma estreia. Nunca, meu trabalho como locutor faria falta.
Não sou o Geovane nem o Paulo Pipoca. Não tenho a pretensão de ser o melhor locutor do país e nem sou o pior. Mas com certeza, neste momento, aqui no Vostok, sou o locutor mais feliz do Brasil.
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E não é que acharam o microfone?
Fui embora do meu antigo emprego em uma mudança. Terminei a praça e levei meu trailer para minha casa. Isso foi numa segunda-feira. Na sexta-feira, dia da estréia do circo em que eu estava, me ligaram de lá perguntando se "por acaso, por algum engano", eu não tinha trazido a base do microfone junto, dentro de minha casa. Ora, a base do microfone nem ficava comigo! Fiquei nervoso, pois esse tipo de pergunta insinua claramente que alguém havia roubado a tal antena. E o suspeito era eu. Bem, como tenho a consciência tranquila, a raiva passou em alguns minutos. Mas como Deus não joga, mas fiscaliza, eis que essa história teve um desfecho rápido e surpreendente. Não é que o microfone "supostamente roubado" apareceu aqui no Vostok?!!! Sabem como? Foi vendido pelo seu dono, juntamente com uma aparelhagem de iluminação ao circo em que estou agora. E estava junto de sua base. Ou seja, ele não havia sido roubado! E, por ironia do destino, aqui, eu estou anunciando o espetáculo com o mesmo microfone que, na cabeça de uns, eu tinha roubado. Que rolo!
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Mais um grande ponto positivo do Vostok: as pessoas que aqui trabalham parece que foram escolhidas à dedo. São grandes profissionais! E pessoas formidáveis. Vou falar agora de uma pessoa que conheci semana passada, aqui no Vostok e que, sem dúvida, já é um grande amigo. Flávio Almeida, o maestro das Águas Dançantes, construtor do aparelho, artista, um verdadeiro engenheiro, mestre e professor. Flávio é uma daquelas pessoas que você agradece por conhecer. Um cara inteligente, que sabe o que fala, sabe se expressar. Tive a honra de conviver com ele durante 4 dias, enquanto ele me ensinava a manejar o aparelho das Águas Dançantes. Flávio, meu amigo, se eu aprendi em tão pouco tempo foi porque tive o melhor de todos os professores. Obrigado por ser meu amigo!
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